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Artigos técnicos · 29 de outubro de 2026

Detecção de fadiga sem interromper o trabalho: o papel da atividade parassimpática

Questionários e testes de atenção dependem da resposta do trabalhador e interrompem a atividade. A Dersalis desenvolveu um modelo que identifica a fadiga pela predominância da atividade parassimpática, medida pela variabilidade da frequência cardíaca num sensor de pulso. Em cinco turnos de logística industrial no pipe shop da Ocyan, em Macaé, o modelo acertou 88% dos alertas emitidos e encontrou 72% dos períodos de baixa atenção, com acurácia geral de 91%.

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Do questionário ao corpo

No primeiro artigo desta série, mostramos que, na sonda ODN-1, 83% das autoavaliações indicaram pouca ou nenhuma sonolência enquanto 57% dos testes de atenção tiveram desempenho baixo. Testes psicométricos são ferramentas importantes, mas a resposta pode se afastar da reação biológica, porque cada pessoa adota estratégias para lidar com a situação de teste (Armario et al., 2020). Além disso, todo teste exige parar a tarefa.

A pergunta seguinte foi: é possível identificar a fadiga continuamente, sem depender da resposta do trabalhador e sem interromper o trabalho? A literatura aponta que sim. Em vez de medições pontuais de aptidão, o monitoramento contínuo de dados vitais permite acompanhar como a fadiga evolui ao longo do turno (Sparrow et al., 2019).

O que a variabilidade cardíaca revela

O intervalo entre um batimento e o seguinte não é fixo. Essa variação, chamada variabilidade da frequência cardíaca (VFC), reflete o equilíbrio entre os dois ramos do sistema nervoso autônomo: o simpático, que prepara o corpo para a ação, e o parassimpático, que conduz ao repouso e à recuperação. Por isso, a VFC é considerada um marcador promissor de sonolência, fadiga e estresse (Burlacu et al., 2021), e estudos recentes mostram padrões distintos entre estados de fadiga e de não fadiga (Gao et al., 2022).

As métricas usadas pela Dersalis estão entre as recomendadas pela Task Force da Sociedade Europeia de Cardiologia (1996), todas no domínio do tempo (Shaffer e Ginsberg, 2017):

  • RMSSD: raiz quadrada da média das diferenças entre intervalos consecutivos, ligada sobretudo à atividade parassimpática;
  • SDNN: desvio padrão dos intervalos entre batimentos, que expressa a variabilidade geral;
  • pNN50: porcentagem de intervalos consecutivos que diferem em mais de 50 ms.

Durante o trabalho ativo, uma predominância parassimpática prolongada é um sinal de que o corpo está entrando em modo de repouso enquanto a pessoa ainda precisa estar alerta. Esse estado está associado a mais lapsos, menor atenção sustentada e maior probabilidade de erro.

Como o modelo funciona

O sensor de pulso usa fotopletismografia (PPG), uma leitura óptica do fluxo sanguíneo, e um acelerômetro. A partir desses sinais, o modelo calcula a frequência cardíaca e as métricas de VFC em janelas curtas e aplica uma árvore de decisão para identificar quando a atividade parassimpática predomina.

Um cuidado central foi não confundir fadiga com descanso. As faixas de referência partem dos valores normais da literatura, mas foram ajustadas para uma população em atividade e consideram o estado de movimento: a mesma leitura tem significado diferente para quem está parado e para quem está carregando material. Essas faixas não são fixas. Como metabolismo e resiliência variam entre pessoas e entre operações, os limites podem ser configurados por operação.

Quando o modelo identifica fadiga, o primeiro a ser avisado é o próprio trabalhador, para que adote uma contramedida (pausa, hidratação, alongamento, troca de tarefa). Se a condição persiste, o supervisor também recebe o alerta e os dois podem combinar uma ação. Não é preciso responder nenhum questionário nem interromper a tarefa para ser avaliado.

A validação em campo

O modelo foi aplicado no pipe shop da Ocyan, em Macaé (RJ), com trabalhadores de logística industrial em turnos da manhã, da tarde e da noite. Foram analisados cinco turnos completos, divididos em janelas de 2 minutos: 830 janelas no total, cerca de 28 horas de trabalho.

Para saber se cada alerta estava certo, cada janela foi rotulada com base em testes e relatos de sonolência aplicados no mesmo período, indicando se o trabalhador estava ou não com a atenção sustentada reduzida. As saídas do modelo foram então comparadas a esses rótulos.

Um turno de perto

No primeiro caso, um trabalhador de logística começou um turno de 12 horas às 19h. Pouco depois da meia-noite, os primeiros sinais fisiológicos de fadiga apareceram, e o modelo marcou três períodos de maior risco:

  • das 0h45 à 1h30, depois de mais de cinco horas de trabalho, quando a frequência cardíaca começou a cair;
  • das 3h20 às 3h50, com predominância clara da atividade parassimpática;
  • das 4h às 4h30, o período mais crítico, com a frequência cardíaca no menor valor da noite.
Gráfico da frequência cardíaca do trabalhador entre 22h e 7h, com queda a partir da meia-noite e mínimo perto das 4h
Figura 1. Frequência cardíaca no Caso 1, das 22h às 7h, como aparece na plataforma. A média cai a partir da meia-noite e chega ao mínimo perto das 4h.

O trabalhador não estava dormindo: o acelerômetro mostrava movimento compatível com esforço leve. Em cada período, ele recebeu alertas para adotar contramedidas. Quando elas não funcionaram ou não foram tomadas, o supervisor também foi avisado.

Entre 5h e 6h, o movimento caiu: o trabalhador descansou, mas não dormiu. A partir daí, a variabilidade entre batimentos aumentou, um componente simpático compatível com privação de sono, a conhecida “ressaca” de uma noite em claro. Às 7h, fim do turno, os sinais de privação de sono e fadiga extrema eram claros. Neste caso, o modelo teve 95% de precisão e 78% de recall.

Gráfico do RMSSD ao longo do turno noturno, com valores mais baixos entre 1h e 4h e alta após as 5h
Figura 2. RMSSD no Caso 1. As faixas coloridas marcam os limites usados pelo modelo.

Resultados

Gráfico de precisão e recall do modelo em cinco turnos: geral de 88% de precisão e 72% de recall
Figura 3. Precisão e recall do modelo em cada turno analisado e no conjunto das 830 janelas.
TurnoJanelasPrecisãoRecallAcurácia
Caso 1 · noite28095%78%93%
Caso 2 · tarde13290%82%93%
Caso 3 · noite13275%56%92%
Caso 4 · noite12173%57%78%
Caso 5 · manhã e tarde16593%76%93%
Geral83088%72%91%

Em linguagem direta: de cada 10 alertas emitidos, cerca de 9 corresponderam a períodos reais de baixa atenção, e de cada 10 períodos de baixa atenção, cerca de 7 foram detectados. No conjunto, foram 147 alertas corretos, 20 alertas falsos e 57 períodos de baixa atenção que passaram sem alerta, em 830 janelas.

Os casos 3 e 4 tiveram desempenho menor. No caso 3, houve poucos períodos de baixa atenção (16 janelas), e cada erro pesa mais. No caso 4, o trabalhador tirou o sensor entre 2h e 4h, justamente num trecho de queda da frequência cardíaca.

Limitações e próximos passos

Parte dos erros veio do tempo de reação do próprio modelo. Por usar médias móveis, os alertas começaram e terminaram, em média, de 2 a 4 minutos depois do momento marcado nos rótulos. Isso não tem impacto operacional relevante, mas conta como erro nas métricas. A validação também se limitou a cinco turnos de uma mesma função.

Os próximos passos são incorporar novos biomarcadores, ajustar as médias móveis e estudar limites que variem conforme o ciclo circadiano, o turno e o perfil de trabalho, como manutenção e logística.

Desde então, o método segue em uso e evolução na plataforma da Dersalis. Hoje os gestores podem ajustar os limites de alerta por operação, direcionar as notificações para grupos diferentes e acompanhar o efeito das intervenções, respeitando as diferenças de cada tipo de trabalho.

Saiba mais

Versão revisada, em português, dos Technical Papers 2 e 3 (2024), elaborados pela Dersalis em projeto de P&D com a Shell Brasil e a Ocyan. Os dados dos trabalhadores foram tratados de forma anônima, em conformidade com a LGPD. Baixe o PDF.

Referências

  1. Armario, A., Labad, J. e Nadal, R. (2020). Focusing attention on biological markers of acute stressor intensity: empirical evidence and limitations. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 111, 95–103. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2020.01.013
  2. Burlacu, A., Brinza, C., Brezulianu, A. e Covic, A. (2021). Accurate and early detection of sleepiness, fatigue and stress levels in drivers through heart rate variability parameters: a systematic review. Reviews in Cardiovascular Medicine, 22(3), 845–852. https://doi.org/10.31083/j.rcm2203090
  3. Gao, R., Yan, H., Duan, J. et al. (2022). Study on the nonfatigue and fatigue states of orchard workers based on electrocardiogram signal analysis. Scientific Reports, 12(1), 1–17. https://doi.org/10.1038/s41598-022-08705-z
  4. Shaffer, F. e Ginsberg, J. P. (2017). An overview of heart rate variability metrics and norms. Frontiers in Public Health, 5, 258. https://doi.org/10.3389/fpubh.2017.00258
  5. Sparrow, A. R., LaJambe, C. M. e Van Dongen, H. P. A. (2019). Drowsiness measures for commercial motor vehicle operations. Accident Analysis & Prevention, 126, 146–159. https://doi.org/10.1016/j.aap.2018.04.020
  6. Task Force of the European Society of Cardiology and the North American Society of Pacing and Electrophysiology (1996). Heart rate variability: standards of measurement, physiological interpretation and clinical use. Circulation, 93(5), 1043–1065. https://doi.org/10.1161/01.CIR.93.5.1043